A palavra ‘ecocídio’, usada por Carlos Nobre em evento recém-realizado pelo Ministério Público da Bahia, causou um daqueles momentos de reflexão capazes de emudecer até mesmo as mais eloquentes plateias.
E era realmente o caso naquele auditório, lotado de juízes, desembargadores e outras autoridades, que passaram uma das últimas semanas de 2025 falando sobre justiça e vários outros temas importantes.
Renomado estudioso do meio ambiente, o cientista não economizou palavras ao traçar o quadro possível caso não se cumpra globalmente a meta estabelecida pela 21ª Conferência das Partes (COP21), há quase dez anos.
Estabeleceu-se naquele grande fórum internacional, realizado em Paris, a necessidade de se reduzirem as emissões de GEE – Gases de Efeito Estufa em 50% até 2030 e zerá-las antes de 2050.
“Se continuarmos com o aquecimento global e chegarmos a 2,5 graus de aumento da temperatura nos próximos 25 anos, teremos um ecocídio – suicídio ecológico do planeta”, destacou o brasileiro, considerado referência mundial em estudos sobre mudanças climáticas.
Sem a adoção de medidas rigorosas desde já, toda a biodiversidade da Terra estará ameaçada e nós, humanos, não seremos meros espectadores neste triste espetáculo, pois o homo sapiens não evoluiu para perder calor, frente a um acréscimo de 3,0 graus na temperatura média, como hoje sabemos ser possível acontecer, até mesmo antes do prazo previsto.
Mas essa trajetória até o fim da nossa espécie, segundo Nobre, na hipótese de continuarem aumentando as emissões de gás carbônico, passaria antes por alguns capítulos não menos dramáticos.
Dentre eles, a morte de todos os corais do planeta; a autodegradação da Amazônia, com a consequente perda da maior biodiversidade do mundo; e o descongelamento do solo da Sibéria, Norte do Canadá e Alaska.
Juntamente com toda essa água viria a emissão entre 200 e 250 bilhões de toneladas de metano, “poderosíssimo gás de efeito estufa, 30 vezes mais crítico que o gás carbônico”, observou o estudioso.
Para tentar evitar tudo isso, o que nos restaria a esta altura, de acordo com Nobre, seria não apenas reduzir drasticamente as emissões, mas também intensificar o reflorestamento, outro freio significativo para o aquecimento global.
E aos que pensam que um quarto de século é muito tempo para revertermos esse quadro, o climatologista lembra haver desde já muitos motivos para grande preocupação.
No ano em que, pela segunda vez, foram batidos todos os recordes de temperatura, ele ressaltou que as ondas de calor são o fenômeno climático mais letal em todo mundo, vitimando anualmente mais de 500 mil pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).
