Quem já teve o privilégio de visitar o Polo Norte, ou ao menos estudou remotamente aquele santuário ecológico, certamente teria de repetir a dose para manter-se minimamente atualizado.
O motivo é o aumento gradual da temperatura planetária, que tem feito daquela região um misto de causa e efeito, pois ao mesmo tempo em que sofre as consequências do fenômeno, ajuda a fomentá-lo.
Estável durante milênios, o exuberante ecossistema do Ártico vem mudando dia a dia, a ponto de ter registrado em 2024 o segundo ano mais quente de sua história, com temperaturas 1,20ºC acima da média.
O leste da América do Norte e trechos da Sibéria foram fortes exemplos disso, de acordo com Arctic Report Card 2024, relatório anual publicado pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA).
Os cientistas acompanham essa evolução desde os anos 1980, e hoje sabem que o aumento de temperatura no Ártico tem avançado praticamente três vezes mais rápido do que se esperava.
As consequências disso vão do derretimento das geleiras até a diminuição drástica da população de renas e outras espécies nativas, após 18 anos consecutivos com os menores níveis de gelo na área.
Ainda segundo o relatório, os níveis atuais de gelo no Ártico são os mais baixos em pelo menos 1.500 anos, com base em reconstruções a partir de dados paleoclimáticos.
Um efeito indireto desse derretimento é o aumento no solo das superfícies escuras, que absorvem o calor ao invés de refleti-lo, como normalmente faz o tradicional manto branco predominante da paisagem.
A região igualmente se ressente dos incêndios florestais, que liberam no ar enormes quantidades de carbono e metano, prejudicando com isso o papel regulador do clima naturalmente exercido pelo Ártico.
O fenômeno se deve à combinação da atividade microbiana no permafrost – camada de terra, rochas e sedimentos congelados – hoje em franco processo de descongelamento pelos incêndios florestais, cada vez mais comuns na região.
Em 2024 – segundo ano em quantidade de incêndios florestais ao norte do Círculo Ártico, as temperaturas do permafrost alcançaram recordes históricos em boa parte das estações de monitoramento no Alasca.
A região da tundra ártica – bioma local de vegetação rasteira -, passou igualmente a contribuir para o aumento das emissões de dióxido de carbono e metano.
Disso tudo decorre, segundo os estudiosos, boa parte das tempestades, ondas de calor e mudanças cada vez mais rotineiros nos padrões dos fenômenos climáticos aqui embaixo.
Enfim, se entre 2001 e 2020 o Ártico foi considerado neutro em carbono, hoje tem em componentes como a tundra – que durante milênios foi um sumidouro desse poluente – um preocupante emissor, agora agravado pela presença de outro mais nocivo ainda, o metano.
